Os gastos com a doença, que começa a ser vista como uma epidemia, superam já os 600 mil milhões de dólares, ou cerca de um por cento do PIB mundial

A luta contra o mal de Alzheimer deverá ser a nova bandeira à frente de uma cruzada mundial que se mobiliza para vencer esta doença, que, estima-se, terá dimensões semelhantes às campanhas desferidas contra a Sida e contra o cancro, com investimentos de biliões de dólares em recursos para pesquisa e tratamento.

Em Dezembro último, o Congresso dos Estados Unidos aprovou a lei que cria o Projecto Nacional contra o Alzheimer, que deverá ser sancionada pelo Presidente Barack Obama ainda no primeiro trimestre de 2011. A lei estabelece as condições para um programa nacional de pesquisa de medicamentos e, inclusive, de vacina para o tratamento do Alzheimer, com a alocação de fundos para experiências em universidades e centros de investigação científica.

O impacto económico da doença que, em alguns países da Europa e nos Estados Unidos, começa a ser vista como uma epidemia, supera os 600 mil milhões de dólares, ou o equivalente a um por cento do Produto Interno Bruto mundial, a somarem-se os gastos com tratamento e custos indirectos relacionados à mobilização de pessoas para o acompanhamento dos afectados pelo mal, devido ao seu caráter incapacitante. Estes valores devem aumentar exponencialmente à medida em que as estatísticas de outros continentes venham a ser computadas de forma sistemática e consolidadas nos números mundiais.

Um relatório divulgado em Setembro de 2010 pela organização Mal de Alzheimer Internacional (ADI, na sigla em inglês), com sede em Londres, que coordena uma rede de entidades com os propósitos semelhantes em todo o mundo, informa que 70 por cento dos gastos ocorrem na América do Norte e na Europa Ocidental, onde estão os países com mobilização consistente da sua rede de saúde pública para atender aos casos da doença.

Segundo a pesquisa, em 2010, mais de 35 milhões de pessoas, em todo o mundo, estavam afectadas pela enfermidade. Este número deverá saltar para mais de 65 milhões ao longo das próximas duas décadas e os maiores índices de incidência deverão ocorrer nos países de média e baixa renda.

Para ter-se uma dimensão da quantia necessária para atender os portadores da doença, o relatório comenta que seus custos globais superam a facturação de corporações como a Exxon Mobil, por exemplo, cujas vendas anuais de petróleo e derivados são de cerca de 300 mil milhões de dólares, isto é o equivalente a metade do que se gasta mundialmente para tratar os pacientes do Alzheimer, além dos custos de pessoas que deixam o mercado de trabalho para acompanhar os acometidos pelo mal.

Nos Estados Unidos, os custos para tratamento dos doentes de Alzheimer estão a subir rapidamente e estima-se que o peso económico anual com a doença seja superior a 170 mil milhões de dólares, e deverá chegar a dois triliões até ao final desta década.

A estratégia para se superar o problema, segundo organizações dedicadas ao tema nos Estados Unidos, é concentrar esforços, da mesma forma como foi feito, no passado, para derrotar a poliomielite, doença degenerativa e epidémica que, como o Alzheimer, também afectava milhões de pessoas, e que foi resolvida com o desenvolvimento de uma vacina.

A epidemia da Sida, que atingiu o seu ponto culminante em meados da década de 80, depois de investimentos em pesquisa e desenvolvimento de novas drogas superiores a 10 mil milhões de dólares, nos Estados Unidos, veio a tornar-se um mal controlável com medicamentos modernos. Segundo as organizações viradas para o estudo do Alzheimer, os investimentos contra a Sida permitiram que os Estados Unidos deixassem de gastar 1,4 triliões de dólares em custos de tratamento.

De acordo com estimativas de instituições de pesquisa, a introdução de medicamentos que fossem capazes de fazer com que, por exemplo, a manifestação da doença nas pessoas fosse adiada por apenas cinco anos, poderia significar que cerca de 1,6 milhões de americanos deixassem de morrer anualmente, com uma economia de 362 mil milhões de dólares, até ao ano 2050.

O mal de Alzheimer é uma forma de demência que engendra a perda de funções cerebrais e que, gradualmente, se torna mais grave ao longo do tempo e vem a afectar a memória, o raciocínio e o comportamento, além de prejudicar a linguagem, a capacidade de tomar decisões, o julgamento e a personalidade. Trata-se de uma doença degenerativa, incurável e terminal, que foi descrita, pela primeira vez, pelo psiquiatra e neuropatologista alemão Alois Alzheimer, em 1906. A maior parte dos casos identificados ocorre em pessoas acima dos 65 anos de idade, embora os primeiros sinais do Alzheimer possam começar a ser observados antes desta idade.

“O mal de Alzheimer é o desafio de nossa geração”, afirmam Sandra Day O’Connor e Maria Shriver, esta última a primeira dama da Califórnia, nos Estados Unidos, líderes de organizações que se dedicam a mobilizar a sociedade sobre a doença.

“Se o presidente Kennedy lançou uma expedição à Lua, porque não podemos lançar uma expedição ao cérebro, a última fronteira da pesquisa biomédica, para descobrir a cura para o Alzheimer e outras doenças neurológicas que afectam milhões de pessoas?”, propõem em artigo assinado no jornal Washington Post. Argumentam que os Estados Unidos estão a debater o seu futuro fiscal e que, entre os numerosos desafios, estão os custos médicos e fiscais das doenças e do envelhecimento da população.

Segundo observadores, o Alzheimer pode ser considerada uma epidemia que está a matar mais de cinco milhões de americanos e que envolve mais de 11 milhões de outras pessoas em tarefas relacionados com o acompanhamento dos enfermos, a maioria das quais mulheres, que são retiradas da força de trabalho para estas tarefas familiares humanitárias.

A lei, que deverá ser assinada nos próximos meses pelo Presidente Obama, permitirá a criação do Projecto Nacional contra o Alzheimer no âmbito do Ministério da Saúde e de Serviços Humanos para coordenar a pesquisa, o tratamento e os cuidados necessários para se enfrentar o problema.

O seu objectivo, segundo a legislação aprovada pelo Congresso, é “acelerar o desenvolvimento de tratamentos que possam prevenir, paralisar ou reverter o curso do Alzheimer e melhorar o diagnóstico precoce da doença, além de coordenar os cuidados e o tratamento dos doentes”.

Uma das recomendações do Plano Nacional contra o Alzheimer será o aumento dos recursos para pesquisa. “Atualmente, gastamos apenas um centavo em pesquisa para cada dólar que o governo federal gasta em tratamento e cuidados para pacientes de Alzheimer”, argumentou a senadora americana Susan Collins, uma das autoras da lei, citada pelo Washington Post.

Ela destacou que os custos da doença estão a crescer a um ritmo de USD 800 mil milhões por ano, “mais do que o orçamento militar dos Estados Unidos”.

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