O ex-vice-presidente do Zimbabwe Emmerson Mnangagwa, cuja exoneração motivou a actual crise política no país, foi escolhido pelo partido no poder para substituir Robert Mugabe como Presidente do Zimbabwe e vai tomar posse hoje, disse esta quarta-feira o presidente do Parlamento.
Segundo Jacob Mudenda, a União Nacional Africana do Zimbabwe – Frente Patriótica (Zanu-PF, no poder desde que o país acendeu à independência, em 1980) já notificou o Parlamento da decisão sobre Mnangagwa, cujo regresso ao Zimbabwe se deu na quarta-feira, depois de se ter refugiado na África do Sul após ter sido exonerado por Mugabe.
Mnangagwa aterrou cerca das 18:00 locais (15:00 em Luanda) numa base aérea militar próximo de Harare, que, segundo a agência Associated Press, foi palco de uma grande concentração de populares que pretendiam dar-lhe as boas vindas e felicitá-lo.
Apesar de o país permanecer numa grave crise política desde a passada semana, quando os militares se rebelaram contra o chefe de Estado, a notícia chegou de surpresa, anunciada pelo presidente da câmara baixa do parlamento, Jacob Mudenda, no decurso de uma sessão que debatia uma moção de censura contra Mugabe apresentada
pelo seu próprio partido.
Gritos de alegria e buzinas de automóveis inundaram a capital, enquanto as pessoas se abraçavam espontaneamente na rua, segundo relatos das agências noticiosas internacionais.
Bandeiras do Zimbabwe e gritos de “descanse em paz, descanse em paz” acompanhavam danças e cânticos, enquanto o sol descia sobra a capital zimbabweana.
Outras imagens mostravam crianças junto a tanques, e dançando ao som da música que ecoava pelas ruas da capital, Harare. Muitos populares também celebravam a intervenção do exército, que acelerou
o afastamento de Mugabe.
O seu próprio partido, a Zanu-FP, tinha emitido um ultimato no domingo para a sua demissão, que terminou ao meio-dia de segunda-feira sem qualquer sinal emitido pelo ainda presidente.
Pelo contrário, e nessa mesma noite, Mugabe emitiu a sua primeira mensagem pública desde a sublevação militar contra o seu governo e pediu que o Zimbabwe regressasse à normalidade e iniciasse uma nova etapa
sem espírito de vingança.
Esta iniciativa constituiu uma desilusão para a população, que tinha saído em massa para as ruas no sábado numa manifestação de rejeição face ao veterano líder do país, com 93 anos.

ONU pede calma

O secretário-geral da ONU pediu calma e moderação no Zimbabwe na sequência da demissão de Robert Mugabe como líder do país após 37 anos no poder.
O secretário-geral da ONU, António Guterres, pediu calma e moderação no Zimbabwe na sequência da demissão de Robert Mugabe como líder
do país após 37 anos no poder.
O porta-voz de Guterres, Farhan Haq disse que as Nações Unidas tomam nota da decisão de Mugabe e apela “a todos os zimbabweanos para que mantenham calma e moderação”.
Questionado pelos jornalistas, Haq escusou-se a falar sobre as alterações políticas no Zimbabwe e possíveis consequências, dizendo apenas que a ONU espera sempre que “todos os líderes escutem o seu povo”. “Esse é um dos pilares de todas as formas de governo e deve ser seguido em
todos os continentes”, adiantou.

Perfil de Mnangagwa

Apelidado de “o Crocodilo” pelo seu carácter brutal e implacável, Emmerson Mnangagwa nunca desistiu de suceder a Robert Mugabe na Presidência do Zimbabwe. Nascido em Setembro de 1942, no distrito de Zvishavana, no Sudoeste da antiga colónia britânica da Rodésia, Mnangagwa cresceu na Zâmbia. Filho de um militante anticolonialista, uniu-se em 1966 às fileiras da guerrilha da independência contra o poder colonial. Preso, escapou da pena de morte
e cumpriu dez anos de prisão.
Mnangagwa também seria um dos homens mais ricos num regime criticado pela sua corrupção, com interesses em minas de ouro — foi um ferrenho defensor da política económica mais polémica de Mugabe: a expropriação e redistribuição de terras até então controladas por fazendeiros brancos desde o período colonial.