Um dos cenários mais tímidos é a mudança da administração do canal de Suez pois é mediante este por onde transita mais de um milhão de barris diariamente.


A elevação dos preços do petróleo para 103 o barril no mercado de Londres, o maior valor desde a crise de 2008, resulta das preocupações de que a situação política no Egipto ainda está diante de um desfecho imprevisível e da ganância de especuladores que se aproveitam dos momentos de incerteza para ganhar dinheiro, sem que esta conjuntura signifique rendimentos extras para os países produtores.

O cenário é visto pelos analistas do sector do petróleo como preocupante, mas sem sinais concretos de que a passagem vital pelo canal de Suez esteja ameaçada. A administração do canal tem reafirmado às empresas de navegação que o tráfego de embarcações segue normalmente e que a segurança das instalações foi reforçada.

As notícias correm soltas, a alimentar a especulação, com a previsão de os valores para os preços do barril poderem chegar aos 200 dólares, em caso de recrudescimento da crise e da sua extensão a outros países, segundo alguns analistas. Um dos cenários mais temidos é o aumento do poder, num futuro governo egípcio, de radicais islâmicos e de uma eventual mudança de rumo na administração da passagem inter-marítima.

Para os mais racionais, contudo, a estratégia da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) deverá ser o reforço da política de manutenção do preço médio do crude em torno dos 80 dólares o barril, considerado o preço adequado para remunerar os produtores e permitir a retoma consistente do crescimento económico mundial. Entretanto, embora publicamente o cartel se manifeste por uma estabilidade dos preços, na prática nenhum movimento foi feito para aumentar a produção com o objectivo de forçar uma baixa do produto.

O canal de Suez, desde que foi inaugurado, no final do século XIX, tem sido uma artéria vital para a circulação de uma parte importante da economia mundial. Por esta via, passa a produção petrolífera do Médio-Oriente e, também, os alimentos destinados à região.

O simples encerramento do canal não é tarefa fácil e, certamente, será uma missão próxima do impossível para quaisquer forças interessadas em golpear o tráfego marítimo por interesses políticos. A administração do canal submete-se a um tratado internacional que estipula que a via de navegação pode ser usada em tempo de guerra e de paz por todos os navios, comerciais ou de guerra, sem distinção de bandeira. A letra da lei, entretanto, pode não ser suficientemente forte para prevenir aventuras e o canal tem sido um alvo preferencial em tempos de instabilidade.

Do ponto de vista militar, a atenção das grandes potências está virada para esta via de 160 quilómetros que liga dois oceanos estratégicos. O General James Mattis, chefe do Comando Central dos Estados Unidos, responsável por operações militares na região, disse, na semana passada, que era “inconcebível que qualquer parte quisesse prejudicar as operações do canal”.

“Se isto vier a ocorrer, obviamente trataríamos a questão nos foros diplomáticos, económicos e militares, embora, este último, para mim, seja hipotético”, disse o general, segundo a agência de notícias Reuters. Isto, obviamente, na boca de um general americano pode soar como “cuidado, não mexam connosco, pois estamos a postos”.

Canal de Suez

O canal de Suez foi controlado pelos ingleses até 1954, tendo sido nacionalizado, em 1956, pelo presidente egípcio Gamal Abdel Nasser. A Guerra dos Seis Dias, em 1967, com Israel, levou ao seu encerramento até 1975.

Esta vulnerabilidade aos conflitos ressurge como um fantasma agora, com a violência no Egipto e o temor de bloqueio do canal e atentados terroristas ao oleoduto Sumed-Oleoduto Suez-Mediterrâneo. Estes dois movimentos, caso sejam executados, constituiriam uma ameaça concreta ao suprimento mundial de petróleo.

Embora o Egipto não seja um produtor de petróleo de peso e as empresas petrolíferas tenham parado a prospecção de novas reservas no país, o seu território é uma ligação crucial para o petróleo e gás destinados à Europa, Ásia e Estados Unidos. O Egipto produz cerca de três por cento dos suprimentos mundiais de gás natural em dois terminais de exportação que operam normalmente. Mais de dois milhões de barris de petróleo e derivados, o que equivale à produção angolana, cruzam diariamente o canal, numa operação mais rápida e mais barata do que a navegação pelo Corno de África, na rota do Cabo. Além do crude, cerca de 14 por cento do comércio mundial de gás natural liquefeito é feito através do canal para abastecer países como a Espanha, Coreia do Sul e Estados Unidos, cujo consumo depende em grande parte deste abastecimento.

A rota ao redor do continente africano adiciona 16 dias na logística de entrega aos mercados e envolve custos adicionais de fretes e seguros, mas seria uma solução aceitável e permitiria garantir um abastecimento adequado, segundo os especialistas. A região tem sido, também, atormentada pela pirataria que actua no Golfo de Aden.

Embora as operações das duas infra-estruturas prossigam normalmente, o aumento da tensão no porto de Suez, no Mar Vermelho, fez com que muitas empresas de logística suspendessem a troca de tripulação dos seus navios no Egipto. Problemas na administração dos serviços portuários provocaram, também, a redução da descarga de crude na entrada sul do canal, no Mar Vermelho. Segundo o New York Times, são observados sinais de redução das operações de carga nos portos de contentores, grãos e outros produtos em Alexandria, no Mediterrâneo, e Damieta, na entrada norte do canal.

“Há uma ameaça potencial de ataques a empregados de empresas de navegação e tentativas de boicote a navios ancorados nos portos, caso venham a ocorrer manifestações mais violentas nas proximidades destas instalações”, advertiu um representante do banco de investimentos Barclay Capital, citado pelo jornal NY Times.

Embora o clima seja volátil, a conjuntura internacional conspira a favor da manutenção do status quo, diante dos riscos que a ruptura deste delicado equilíbrio possa trazer para a equação do suprimento.

O Egipto tem tido uma atitude de comprometimento permanente com o tráfego pelo canal e as interrupções, desde 1975, após a guerra com Israel, têm sido raras. O exército do país é treinado para operar o canal, em caso de interrupção por greves, ou outros motivos.

Outro dado que pode amenizar a eventualidade de interrupções é a disponibilidade de uma frota de grandes cargueiros e navios tanques construídos ao longo das últimas décadas, que são capazes de manter o abastecimento dos países consumidores, em caso de paralisação das operações do canal.

A consultoria económica IHS CERA, de Daniel Yergin, renomado especialista em energia, avalia que a situação é relativamente segura, diante dos cinco milhões de barris de excedente de capacidade de produção disponível para garantir o suprimento mundial, se necessário, um volume significativamente maior do que a quantidade de crude que transita pelo Egipto.

A novela, enfim, segue com emoções fortes, mas ainda sem um desfecho trágico. O mundo espera que, como nos filmes de Hollywood, o enredo seja emocionante, mas tenha um final feliz, para os egípcios e para o mundo.

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