Nas economias neoliberais actuais, o feitichismo inerente à forma ‘mercadoria’ assume uma profundidade que, talvez, surpreendesse teóricos proeminentes como Thorstein Veblen, Max Weber e o próprio Karl Marx. A inversão e alienação feitichista observam-
se muito especialmente no caso de alguns bens de consumo pessoal. Hoje, uma parte importante dos gastos em consumo das famílias aplica- se na compra de bens, não devido ao seu valor de uso intrínseco, mas ao seu significado social. O televisor,
o carro, o telemóvel, o computador, os sapatos, etc., compram-se, não pela sua utilidade natural, mas pelos “poderes mágicos” que lhe são atribuídos, em termos de ascensão e estatuto social. Um fenómeno de arrivismo enfermiço, muito associado às bases estruturais do estilo neoliberal, cujos traços e fundamentos tentaremos delinear, apoiando-nos na experiência doméstica que consideramos uma manifestação com êxito, do neoliberalismo africano. Mas, o fenómeno reproduz-se de modo semelhante noutros países, assumindo traços quase delirantes. Projecta-se mesmo, como ideologia para consumo da classe média e opera, como um dos pilares que afirma e sustenta os seus regimes neoliberais.
No padrão de acumulação neoliberal, o poder hegemónico é exercido pelo capital financeiro-especulativo. Este, pelas suas características intrínsecas - é um capital improdutivo e parasitário - tende a propagar por toda a estrutura social, o seu estilo de enganos e armadilhas. Logo, gera um forte impulso à decomposição moral e, além disso, obstaculiza o investimento produtivo. O modelo neoliberal é associado a um baixo crescimento do PIB e da produtividade do trabalho, o que, por sua vez, determina uma fraquíssima capacidade para gerar empregos, tanto em termos absolutos, como relativos. Aumenta o desemprego, mas sobretudo, cresce o índice de marginalidade social: propensão para ocupações improdutivas, venda ambulante, actividades ilícitas, crime, prostituição, alcoolismo, etc, e concomitantemente, estende-se à decomposição moral.
Um terceiro traço vê-se na distribuição muito desigual do rendimento - e do património - que tipificaas economias neoliberais. À taxa de mais-valia muito alta, associa-se a um alto peso do excedente económico, no rendimento nacional. Essa taxa mede a relação entre o rendimento inicialmente apropriado pelos capitalistas e a parte que vai para os assalariados produtivos. O pagamento
do salário dos trabalhadores improdutivos fica a cargo da mais-valia e sob tais condições, surge o problema de como realizar o excedente, ou seja, como transformar os ‘produtos- mercadorias’ que integram o produto excedente, em dinheiro contábil
e sonante.
Por regra, num quadro neoliberal, o principal expediente que se utiliza para resolver o problema de realização, engendrado pela alta taxa de mais-valia, são os gastos improdutivos – que passam a crescer em termos exponenciais, derivando a perversa combinação em que, ao lado dos níveis insanos de exploração, aparecem altíssimos níveis de desperdício. Os gastos improdutivos, de entre outras coisas, implicam quase sempre gastos militares, consumo dos capitalistas e dos assalariados improdutivos. Paralelamente
e desempenhando um papel decisivo, surgem as agressivas campanhas para elevar a propensão ao consumo das famílias. Significativamente, o antigo afã puritano de levar uma vida áustera e conseguir os maiores níveis possíveis de poupança
(factor muito destacado por Max Weber) é substituído pelo culto a um consumo mais desenfreado. Como soe dizer-se, passa a imperar o lema: “compro, logo existo”; e a operarem como num jogo de pinças, dois factores determinantes - a) campanhas
publicitárias impressionantes, com uma penetração cada vez mais maciça do ‘mandamento religioso’ - «é preciso estar de acordo com a moda e mudá-la frequentemente; com a maior celeridade possível»; b) facilidades creditícias que a banca concede
ao consumo, abrangendo um universo de potenciais consumidores de rendimento médio e baixo, que antes não tinham nenhum acesso ao sistema. Tudo a desembocar numa relação entre dívida e rendimento familiar, que sobe cada vez mais, até perfilar uma situação de fragilidade financeira, que se torna bastante perigosa para a estabilidade financeira do sistema.