O líder histórico da China, Mao Tsé-Tung, tinha o hábito de utilizar metáforas nos seus discursos e escritos. “Metade do céu”, alusiva à mulher, é um exemplo.
O comunista que dirigiu o maior país asiático com mão de ferro, entre 1 de Outubro de 1949, data da constituição da República Popular da China, até 9 de Setembro de 1976, quando deixou o mundo dos vivos, era perspicaz na análise das questões políticas, sociais e económicas, ao contrário da prática que se revelou desastrosa.
Nesta última área, todos os programas, perspectivas e objectivos assentes no sistema de economia centralizada redundaram em colossais fracassos, como em todos os países dominados por partidos inspirados no marxismo-leninismo.
Angola é um pálido exemplo do fiasco da materialização da teoria política, ideológica, social e económica desenvolvida por Karl Marx e Friedrich Engels.
Depois da morte do líder chinês, seguiu-se um breve período de transição, em que os sucessores do velho “Timoneiro”, conhecidos como “Bando dos Quatro, foram presos e afastados da vida pública.
A política radical até aí praticada, causou inevitáveis prejuízos à sociedade e à enfraquecida economia centralizada. A deriva do “Bando dos Quatro” acabou em 1978, quando Deng Xiao-Ping preparou as bases para assumir as rédeas do poder.
A tomada de poder não se limitou a uma troca de poderes. O novo residente da Cidade Proibida, antigo complexo imperial e centro do poder político, foi mais longe na mudança de linha política, avançando para uma alteração radical do rumo da economia, com base no conceito de “um país, dois sistemas”.
A partir da década de 80, o “gigante asiático” abriu as portas ao capitalismo a título experimental em regiões relativamente prósperas do litoral e do Sul, com a criação das Zonas Económicas Especiais. Ao mesmo tempo, atraiu investimento estrangeiro directo na perspectiva da modernização do país.
Os frutos dessa mudança são incomensuráveis, passados 42 anos da morte de Mao Tsé-Tung. Um simples dado ilustra bem a evolução traçada por Deng Xiao-Ping: A China é hoje a segunda economia mundial, à frente do Japão, perdendo apenas para os Estados Unidos da América (EUA).
O empedernido “Timoneiro”, feroz inimigo do capitalismo, deve estar a rebolar no túmulo da Praça da Paz Celestial, em Pequim. Porém, no período sombrio da Guerra Fria, compensou o isolamento e os fracassos da política económica com uma influente diplomacia, assente numa análise lúcida e objectiva das relações internacionais.
Quando proferiu um longo discurso, que se transformou numa cartilha denominada “Uma grande desordem debaixo dos céus” - mais um das tantas metáforas alusiva à Terra -, o velho líder estava longe de imaginar que, por mais voltas que o Mundo desse, as relações internacionais continuariam desfeitas em cacos.
A bipolarização assente nos blocos ocidental e socialista (leia-se, comunista) implodiu com o fim da Guerra Fria. A queda do Muro de Berlim despoletou a abertura da Rússia e da Europa do Leste ao capitalismo, enquanto a China aprofundava “alegremente” as mudanças económicas.
A anterior divisão do Mundo deu origem à globalização da economia em todas as suas vertentes, incluindo as relações comerciais e os circuitos financeiros. Julgava-se então, nesse período de euforia descontrolada, que a queda das barreiras políticas, diplomáticas, económicas, financeiras e comerciais, trouxessem paz, harmonia, desenvolvimento e prosperidade.
A “festa” durou pouco tempo. À nossa volta, como diria Mao Tsé-Tung, reina “uma grande desordem debaixo dos céus” num outro contexto. As três grandes potências, EUA, China e Rússia, estão envolvidas numa competição encarniçada assente no expansionismo económico, num ambiente de tensão militar a fazer lembrar a era do imperialismo.
Neste jogo de influências geo-estratégicas, desfazem-se e estabelecem-se novas alianças, rasgam-se tratados comerciais e acordos de cooperação multilateral, como quem muda de camisa. O conceito de globalização sofreu um revés com a ascensão do nacionalismo e do populismo, que vê no unilateralismo e no proteccionismo a solução para a perda de velocidade de algumas economias.
No embalo desta política, onde não há consenso sobre importantes questões internacionais, agrava-se a pobreza nos países menos desenvolvidos, aumentam os fluxos migratórios, resultantes de conflitos armados, crime organizado à escala internacional, alterações climáticas e miséria.
O Humanidade assiste perplexa a este retrocesso que afecta a todos, sem haver indícios de uma reviravolta, nem sequer de vontade política dos poderosos, cada vez mais distanciados de um entendimento pelo bem comum.