Ainda sobre o primeiro ano de mandato de João Lourenço, observamos um certo entusiasmo e grande optimismo em torno desse facto. Principalmente da esmagadora maioria dos extractos sociais que ansiavam por mudanças significativas no cenário político angolano.
Contudo se no campo político, onde afinal se desenham as intenções e directrizes do caminho a seguir, verificamos alguma mudança radical no discurso, sustentada por atitudes alinhadas com o mesmo discurso.
No capítulo prático, verificamos que ainda nem se quer se saiu da linha de partida, uma vez que a nefasta corrupção que infestou todos os sectores da vida nacional, foi permitida pelo desvirtuar dos mecanismos institucionais de controlo e estes continuam os mesmos.
Claro que em termos cronológicos, não obstante o empossamento presidencial ter acontecido a sensivelmente mais do que 365 dias, dada a especificidade da nossa constituição, que transforma o presidente do principal partido, numa entidade potencialmente tão poderosa quanto o presidente da República podemos, sem medo de errar, afirmar que o poder presidencial efectivo foi consolidado a pouco menos do que um mês, ou seja desde 8/9/2018.
Não pretendendo fazer análise política, por déficit de vocação nessa matéria – que aliás julgo não ser também a vocação desta publicação – não podemos, contudo olvidar que qualquer análise de índole económica, para que tenha consistência, recomenda a conveniência que se debruce também sobre o contexto político, uma vez que este condiciona a execução económica.
Neste contexto, face a tudo o que foi até aqui aflorado, depreende-se que embora o tempo presidencial seja demasiado curto para qualquer tipo de juízo relativamente à performance, são notórios os esforços do titular do cargo em prol da mudança do status quo vigente. Sendo visível a sua intenção de ruptura abrupta com o passado. É neste ponto em que devemos nos consciencializar que, embora louvável o empenho demostrado por João Lourenço, a mudançanão é uma tarefa messiânica, atribuída a um homem só – A história tem nos demostrado que no longo prazo isso tende até a acarretar consequências avassaladoras - Este processo de mudança, deve ser abrangente e extensivo a toda a sociedade e, para isso, convém objectivamente reflectirmos sobre o que correu mal ao longo desses anos e trabalhar em prol da correcção.
Excluamos o processo da guerra e debrucemo-nos sobre o alcance da paz, da abertura multipartidária e da assumpção da economia de mercado. Quid uris?
Aparentemente com o fim da guerra, a “máquina de petróleo”, construída para sustentar o esforço de guerra, ganhou outra utilidade. A Elite no poder, despindo-se da ideologia marxista, abraçou entusiasticamente o capitalismo do compadrio. Reinventou-se em algo que podemos chamar de Capitalismo Feudal Selvagem. Hoje vemos o efeito desse fenómeno. Deparamo-nos com verdadeiras multidões de indivíduos que puderam ao longo de anos a fio delapidar impunemente o erário público em benefício próprio. E regozijamo-nos com a detenção de alguns deles, esquecendo-nos que tal facto apenas foi possível porque institucionalmente o Estado foi deliberadamente enfraquecido, despojado dos mecanismos de controlo e fiscalização e submetido ao empoderamento de uma minoria. Mas sabem qual é a má notícia? Nada disso ainda mudou. E essa efectivamente, deve ser a principal mudança. É claro que os corruptos, os nepotistas e outros males nocivos devem ser combatidos, porém essa será uma consequência natural da devolução institucional e formal dos poderes ao Estado, da separação e independência real dos três poderes e da efectiva fiscalização
da actuação do Executivo.
Em suma, todos temos consciência que isso certamente ocorrerá um processo gradual e consistente. A actual vontade governativa não só o prenuncia, como demostra ser esse o propósito, mas nunca é demais ficar aqui o lembrete de que embora nos agrade o fait divers das exonerações e detenções de presumíveis corruptos, temos plena noção do que é essencial e deve estar na prioridade da agenda. Neste contexto, convirá que no segundo ano de mandato do novo Presidente,possamos balancear o nível de robustez das nossas instituições, bem como os progressos socioeconómicos acarretados por tal facto.