A escassez dos bens é um assunto do âmbito da análise dos economistas, e tudo que é escasso acaba por ter preço, às vezes muito alto, e a água é um destes recursos. De toda a água existente no nosso planeta, cerca de 97,5 por cento é salgada e apenas 2,5 é doce. No séc. XXI, não obstante os problemas relacionados com a escassez de diversos bens naturais, um dos problemas que os países terão de enfrentar estará, obviamente relacionado ao acesso à água doce, tanto para o consumo humano, animal, como para a indústria e serviços.
O recente alerta vem da cidade de Cape Town, na África do Sul, onde a implementação de políticas para minimizar o problema da escassez de água é crucial. Aliás, para quem tem a pretensão de estudar naquela cidade recebe instruções precisas sobre a utilização da água, também do Japão, onde as altas temperaturas vêm exigindo um consumo cada vez maior de água e no Nordeste do Brasil que de acordo com a pesquisa do Sebrae os empresários locais estão preocupados com a facturação devido aos problemas relacionados com a falta de água.
A preservação das fontes naturais da água, ou dos rios, não é necessariamente um “capricho dos ecologistas e nem é luxo dos países ricos”. Trata-se, na verdade, de uma questão de soberania. As reportagens da Televisão Pública de Angola, no Telejornal,dos dias 23 e 27 de Julho, mostraram o que está a acontecer: (i) na província de Cabinda, o lixo, a lavagem de carros e as construções anárquicas tomaram de assalto um determinado rio;(ii) o garimpo de água que vem sendo efectuado por cidadãos chineses, utilizando-se, inclusive, de laboratórios pouco convencionais para a produção de água engarrafada, no distrito urbano do Kikuxi. Estes factos, além de fazerem bradar os céus, situam-se num contexto marcado pela degradação, perda da biodiversidade e o aumento dos riscos à saúde.
Tudo indica que vivemos um paradoxo, pois ao mesmo tempo que precisamos da água para a nossa existência, enquanto espécie humana, destruímos as fontes para obtê-la num gesto de pura irracionalidade.
O cientista francês Louis Pasteur tinha alertado para o facto de 90 por cento das doenças serem originadas pela carência de água. Erik Orsenna afirmou que a “ausência de água mata 10 vezes mais do que as guerras”. O problema da escassez de água no Sul da Europa e a sua qualidade no Norte, a desertificação que surge um pouco por toda a África, a reduzida produção agrícola, senão mesmo a escassez de alimentos, e os regulamentos dos governos sobre o consumo de água cada vez mais rígidos, assentam no pressuposto real do desaparecimento do precioso líquido.
Diante de um contexto tão catastrófico,resta-nos, enquanto agentes económicos, repensarmos o uso e a gestãodas fontes deste recurso. É necessário considerarmos propostas de melhorias do quadro actual sem criarmos rótulos para os ambientalistas ou ecologistas de “ecochatos”.
Aliás, a cobrança pelo consumo de água doce deve servir de um estímulo para um uso mais racional, em função das condições de escassez em quantidade e em qualidade, já que a água deixou de ser um bem livre e passou a ser um bem com valor económico.
As evidências levam-nos a três cenários: (i) água para todos, sob inerência de um mundo que cresce de maneira integrada e contínua (ii) água para alguns, em função do crescimento económico desigual e desenfreado que o mundo vem conhecendo (iii) água para poucos, resultante da falta de preocupação com a sustentabilidade e das gerações vindouras e carentes de conceito de “destruição criativa”.
A magnitude da crise de água doce e os riscos associados são quase sempre subestimados. A água é fundamental para o alcance dos Objectivos de Desenvolvimento do Milênio das Nações Unidas e é uma variável imprescindível para a sustentabilidade social e crescimento económico a longo prazo, sem descorar a sua importância para a segurança energética.
Deve haver maior responsabilização por parte dos indivíduos que cometem atrocidades relativamente ao mau uso consciente ou inconsciente dos recursos hídricos que pode colocar a vida em perigo.
As soluções para o dilema da água são prementes e Loic Fauchon, ex-Presidente do Conselho Mundial de Águas deu o tom de como as sociedades devem encarar, esse desiderato: “temos de dizer clara, nítida e incisivamente que a água é um direito, o que nunca foi dito em alto e bom som, porque um certo número de países se nega. Ela é um elemento essencial para a sobrevivência e dignidade humana, e deve estar inscrito na Constituição de todos os Estados, pois, para além do aspecto simbólico, esta atitude será muito corajosa”.
Porque se assim não for, a factura continuará a ser alta, e o que se paga hoje será apenas algo irrisório, face ao custo futuro.