Um dos assuntos passados ontem em revista pelos deputados, que discutiram na generalidade o Orçamento Geral do Estado, foi sobre a difícil situação por que passam os habitantes de Caimbambo, província de Benguela. A fome tomou conta do município, onde falta de tudo, segundo informações. Não há chuva. A estiagem acelerou e a penúria apossou-se de tudo e todos.
O que toca verdadeiramente à sensibilidade é o facto de as informações avançarem de que a população está a esvaziar as mangueiras. Quer dizer, as mangas ainda verdes entraram numa disputa de quem consegue mais para saciar a fome familiar. O grito de socorro foi lançado e todos os esforços estão a ser canalizados para que os danos que a falta de alimentos está a causar não sejam ainda mais piores.
A fome mata e mata mesmo. E situações do género, entre nós, hoje com Caimbambo e antes noutras zonas também, já são recorrentes e há toda a necessidade de se trabalhar mais para que, de uma vez por toda, se ponham definitivamente cobro.
Caimbambo é uma zona agrícola e que produz em abundância em todo o seu território e tem um efectivo animal (bovina e caprina, só para citar estas duas espécies) de invejar mas que também não está a ser poupado por este gritante e insuportável momento de desventura. Disse-se ontem no Parlamento (voltou à transmissão em directo) que o sucesso de uma economia está na agricultura. Ou seja, está na atenção que se presta às comunidades camponesas.
Logo, cenas como a que está a passar Caimbambo nos levam ao triste sentimento de que se está a prestar pouca atenção às famílias rurais. Quer queiramos, quer não, são o garante do nosso sustento, por via do que produzem. Obviamente que se fala da questão do escoamento de produtos para os centros urbanos mas se sabe também que tal não acontece porque se teima em se criarem estruturas sólidas e capazes para desenvolver esta articulação comercial facilitada entre o campo e a cidade.
Fala-se muito na redução das assimetrias regionais. Que assim seja! Pois Caimbambo é exemplo disto mesmo: da diferença de tratamento entre umas e outras regiões ou cidades. Caimbambo é uma localidade de um pôr do sol radiante, qual a sua gente e linda para desenvolver o turismo.
A situação de fome está a afectar também localidades de outros municípios vizinhos. No caso, Chongoroi, Cubal e Ganda. Diz uma informação da RNA que uma criança come duas a três mangas para matar a fome”. Dramático! O que tem levado às autoridades da província a lançarem o apelo emergencial. São 124 famílias em dificuldades alimentar. Sem uma refeição diária, conforme relatos.
Muitas vozes com sentido crítico alegam mesmo que o quadro desolador, como que a desafiar o programa de combate à fome, surge numa altura em que a política agrária tem sido bastante questionada, em grande medida, devido ao baixo orçamento para a agricultura.
Para o agrónomo, José Patrocínio, o cenário de carência era previsível. “Era de prever-se que isto acontecesse” pois, no seu entendimento, as políticas agrárias no sentido do aproveitamento da água é importante. Porquanto, deixando que estas zonas só dependam das chuvas é um risco. “Seria bom que existissem políticas para o aproveitamento dos recursos hídricos, para criar armazenamento”.
Pensamos que nada mais líquido do que esta apreciação. A questão armazenamento da água é fundamental para quem quer efectivamente bons resultados dos campos, ao menos que a agricultura seja colocada num plano terciário, ficando dependente do barco que sai do exterior, como um dia sustentou Carlos Cunha, quando num debate televisivo assumiu que “vivemos do barco”
que atraca com comida nos nossos portos.
A ser este o desejo, de desleixo e desvalorização do nosso sector produtivo primário, então nada a contestar. Agora se passarmos a ter a agricultura como prioridade neste novo paradigma económico, virado para o relançamento produtivo para reduzir à importação e passarmos a exportar também além do petróleo, então, de uma vez por toda, aprendamos a valorizar e apoiar mais quem produz a terra.
O campo, no âmbito do “corrigir o que está mal”, com certeza, que faz a sua parte. Agora cabe a cidade perceber isto e procurar subsidiariamente ajudar a melhorar o que já está bem: a disponibidade dos municípios do interior estarem prontos a participarem no processo de diversificação económica. Por isso, não dá deixar que os resultados agrestes dependam das enxurradas e quando não há, ir buscar a sobrevivência em mangas verdes.